domingo, 6 de dezembro de 2009

Torre de Névoa


Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”
Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...

Florbela Espanca

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pequena Flor


Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
E se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
Na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme
E vê passarem as leves borboletas livremente
E ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia
E o sol claro do dia às claras estátuas beijando sente
E espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
Pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
A libertasse, porém a desprenderia do galho
E nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
- Assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
Há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida

Cecília Meireles

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O AUTO-RETRATO


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Mario Quintana

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Meu amor



De ti somente um nome sei, Amor,
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!

Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce assim uma paixão tão inquietante!
Meu doido coração triste e amante
Como tu buscas o ideal na dor!

Isso era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...

Paixão ardente, louca isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!

Florbela Espanca

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

CORAÇÃO

Tenho um coração
saltando boca a fora.
Uma emoção
que saltitante não tem hora.
Uma lucidez
metálica
repleta de um lirismo
denso.

Meu coração arcaico
coagido
é modernidade.
No verso,
uma metáfora cansada
já virando metonímia
desapercebida
pela rotineira pulsação.

Coração que não tem pressa
pra se decompor
enquanto se compõe
qual uma orquestra de instantes.

Estática prisão de sensações
inviolável
de instável que é.

E peito a dentro,
é só o centro
de uma vida que cansa.

Tímido, recolhido,
cumpre tão somente
o seu dever, pulsando,
de me manter em verso
a vida repensando.

Paulo Franco

Porque foges?


Paro em cima de uma linha
Imóvel divisa sem nexo
E espero que aconteça
O que não espero

Sinto tua falta
Como sinto falta d'água
Como sinto tua falta...!

E em outros braços
Me deixo levar
Sem sentir
Sem amar
Seja lá o que for
Este sentimento

E aprendo
Sim
Aprendo
O que já sabia
O que já sentia
Por ti

E busco palavras
Para expressar
E grito no vazio
Noite vazia
Madrugadas insones
A trabalhar para fugir
Do que não se pode fugir

Mas porque tu foges?
Porque não encaras teus medos?

Não sei
Só tu podes saber...

Alfredo Rebello